Deja Vú
Percorria o percurso descendente à solidão escolhida, quando a memória exumou um pedaço da pessoa obsoleta que deixei num banco de rua. Encontrei um livro velho perdido, com a capa solta, as folhas chamuscadas e o título em aberto para o corajoso capaz de dar nome ao próprio destino. Ao abri-lo, percebi que as linhas citavam uma realidade conhecida e a curiosidade incitou-me a ler as primeiras palavras e as próximas... até que não sou capaz de parar, não só porque não quero como a história acaba antes de um ; ... o final está aberto à ilusão da voz ou será que os meus passos perderam o chão? Enquanto o raciocínio estava focado no que acontece às sílabas destroçadas pela capa do livro, a escuridão que atribuía cor às folhas incendiou o seu rumo até mim. Por a dor ser hábito, só o larguei após as sombras saquearem a minha pele e escavarem um vazio na minha caixa torácica que o passado deixou marcado como alvo para o desprezo daqueles que dizem ser humanos. Emerge do nada e pareceu de início ser a esperança perdida em anos, contudo acabou por ser só mais uma corrosão da minha frieza... aquela que o comum mortal considera ser o estado normal da máscara a que dei vida. És um dejá vu, uma semelhança inumana da única pessoa capaz de colar os meus pedaços de vidro e a única capaz de o quebrar de modo irreparável. Escondido entre as paredes de um recanto próprio, com um sorriso malicioso nos lábios e um olhar astuto, remexes com a pedra que o meu coração encarna. Coberta de cicatrizes da catástrofe intitulada amor, ignorei a razão e a reticência instintiva, cedi à inexplicável atração da incandescência. Inconsciente do risco o coração criou a ilusão de uma história impossível, conduzindo-o à condenação máxima e encontrando-se exilado na indiferença. Porém, revelas uma indecisão anárquica com ações de rara afeição para com a minha vulnerabilidade, impelindo-me à insanidade.
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