Perdida

Perdi-me enquanto o amava e encontrei-me quando o amei. Sabia onde estava e para onde ia porque o norte era meu. Ostentava o seu cheiro na pele, o seu calor na alma e o seu olhar preso no meu. Isso é passado, o presente esconde 132 pedaços de carne destruídos pela saudade, coração que arde brando num inverno bélico. Onde mãos quentes delineavam o caminho de um incêndio, resta o sussurro da memória incapaz de fabricar uma voz inaudível. Onde morreu o último beijo existe uma dormência que incita a procura dos lábios ameaçados por outra boca. Quando à noite a dor assalta a minha consciência, existe o hábito de criar a ilusão de outra pessoa na escuridão. Encontro uma cama vazia ausente da única alma que induzia paz na minha constante batalha invisível, ausente dos únicos braços capazes de curar os seus pedaços de vidro. Só existe silêncio, oiço o meu batimento cardíaco acelerado porque corro à procura do rosto a quem nunca disse adeus, encontro nada. Enquanto ela, ela encontra-o a ele, o porto que o nevoeiro escondeu do barco perdido que sou, à deriva num oceano de recordações mentais... encontra a casa a norte da bússola que eu perdi e para onde não posso ir quando mais anseio. Estou assustada pela própria vida, pelas circunstâncias mutáveis que parecem só piorar e a única direção que quero escolher, é a única que é inalcançável. Por isso, estou calada... quieta. Existo, estátua de mármore branco, presa onde nasceu para a vida, onde perdeu os pedaços que esculpiam as suas feições mais históricas. Existo, ainda à procura...

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